RÉGIS BONVICINO. LINDERO NUEVO VEDADO (QUASI, 2002)

Eduardo Pitta

RÉGIS BONVICINO. LINDERO NUEVO VEDADO (QUASI, 2002)

Depois de um intervalo de mais de trinta anos, a poesia brasileira volta paulatinamente a fazer parte das prioridades dos editores portugueses. Nos últimos meses foram publicados livros de Drummond, Manoel de Barros, Adélia Prado, Antonio Cícero, Gustavo Arruda, Carlito Azevedo, Eucanaã Ferraz e Régis Bonvicino; a revista Colóquio-Letras dedicou o nº 157-158 a João Cabral de Melo Neto; e duas antologias mais ou menos panorâmicas fizeram o indispensável tour d’horizon. Assim, enquanto não chegam os prometidos livros de Ferreira Gullar (anuncia-se a integral em vários volumes), Sebastião Uchoa Leite e Paulo Leminski, fiquemos com Lindero Nuevo Vedado, uma antologia da obra de Régis Bonvicino (n. 1955) organizada por Romulo Valle Salvino, que assina o prefácio. E o que é que nos diz Salvino? Depois de contextualizar a situação da poesia brasileira pós-1970 num registro de “lirismo seco, abrupto”, que caracteriza “certo existencialismo não contracultural mas também não conformista, a dificuldade de apreensão dos textos a uma primeira leitura, a possibilidade de dialogar com outras artes sem se dissolver nelas” – situação análoga à do movimento americano Language -, conclui que o “percurso de Bonvicino configura uma das respostas particulares a esse momento [que se] desdobraria nas décadas de 1980 e 1990” (pp. 10-11). Também explica a origem do título Lindero Nuevo Vedado, extraído de um dos poemas da seleção, como assumida propensão pelo obscuro e o proibido, conjugados com o novo, numa “intersecção entre o existencial e o metalingüístico, a obsessão pelo contemporâneo” (p. 16). É um poema em prosa de Céu-Eclipse (1999), no qual Bonvicino dialoga com Michael Palmer: “Vejo você mais tarde […] Há uma rua chamada Lepic. Há uma outra, Lindero Nuevo Vedado. Aquela calçada está suja. Sweet William é o nome de uma flor. Elefantes não fiam pontas de agulha” (p. 109). Tendo começado a publicar muito jovem – o primeiro livro, Bicho Papel, é de 1975 -, Bonvicino é autor de duas importantes antologias de poesia brasileira, publicadas ambas nos Estados Unidos: Nothing the sun could not explain (1997) e Lies about the truth (2000). A maturidade plena chegou com Ossos de Borboleta (1996), que aqui leva a parte de leão. Percebe-se porquê: “No espaço de tempo/ em que o sol está/ abaixo da linha do horizonte,/ contra o dia// uma estrela se reinventa/ porque, em silêncio,/ selenitas escavam/ hialinas rochas peremptas” (p. 77). Hermetismo, metafísica, sarcasmo, jogo paródico (com Creeley, Ferlinghetti ou La Fontaine), vênia ao significante concretista, tudo flui nesta poesia avessa à retórica: “Entre motores/ e ruídos […] o vôo do pássaro/ cria// uma nova hipótese/ de espaço” (p. 80). E, no entretanto, o poema abre: “Talvez seja um pássaro voando/ talvez seja um minuto de silêncio/ talvez seja o sol se escondendo […] talvez seja só um botão/ lilás/ roído por dentro/ talvez seja o sol se pondo” (pp. 103-104). A oficina é de rigueur, o tom minimalista, e a seleção prova que Bonvicino é um nome a seguir com toda a atenção.

PITTA, Eduardo. “Régis Bonvicino” In: “Poesia em O som & O sentido” In: “Livros do trimestre”. Ler: Livros e Leitores, nº 57, Lisboa, inverno 2002, p. 91-92.