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UM BARCO REMENDA O MAR  
 

SUMÁRIO

O MANDATO CELESTIAL
Régis Bonvicino

À SOMBRA DA REALIDADE
Yao Feng

PALAVRA DO PRIMEIRO LEITOR
Márcio-André

POESIA CHINESA CONTEMPORÂNEA
PublishNews

UM BARCO REMENDA O MAR - DEZ POETAS CHINESES CONTEMPORÂNEOS
Aurora Bernardini

SOBRE YAO FENG

PRESS RELEASE
Régis Bonvicino

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UM BARCO REMENDA O MAR (2007)
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UM BARCO REMENDA O MAR / DEZ POETAS CHINESES CONTEMPORÂNEOS (2007)

 

SOBRE YAO FENG

Yao Feng, pseudônimo de Yao Jingming, nasceu em 1958 em Pequim, e foi doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Fudan, em Shangai. Atualmente é professor auxiliar no Departmento de Português da Universidade de Macau. Para além de ter traduzido para chinês dezenas de poetas portugueses, já publicou cinco obras de poesia, em Chinês e em Português: Nas Asas do Vento Cego (1990), Influência (1997), Viagem por Momentos (1999), A Noite Deita-se Comigo (2001) e, Cancão para Longe (2006).  Recebeu vários prêmios e coordena a revista Poesia Sino-Ocidental. Em 2006, recebeu a insígnia da Ordem Militar de Santiago de Espada, atribuída pelo Estado português.   

 

姚风是一个关注当代生活、具有独特性的诗人。他在诗歌中重塑了古典寓言,幷把它融入日常生活之中,使其成为抗拒诗歌死亡的言说,这是他的诗歌隐含的题材和主旨。姚风有纯真的感觉,不会取巧,因此它真实地向世界的事物敞开。他充满爱意,但又没有放弃批判精神。我肯定,姚风用双手编织的不仅仅是“阴影”,而是第一流的诗歌。 

— 雷吉斯·邦维西诺    

 

Yao Feng é um poeta original, atento à vida contemporânea. Em seu trabalho, refabula as fábulas clássicas, trazendo-as para o cotidiano, para confabular contra morte da própria da poesia, objeto e tema implícito de seus poemas. Sua sensibilidade é franca, pura, mas, não é “ingênua” e, em conseqüência, aberta, de verdade, aos fatos do mundo ; seu olhar é afetivo, sem, no entanto, deixar de ser suficientemente crítico. Afirmo que aquilo que as mãos de Yao Feng tramam acabam por não ser apenas “sombra”, mas, ao contrário, por ser poesia de primeira linha.  

Régis Bonvicino, maio de 2007

 

狼来了 

狼来了,
羊们没有跑,
只是停止了吃草,
他们排成整齐的队列
像一垄垄棉花。 

骄阳似火!
狼嚎叫了一声:
“真他妈热!”
所有的羊
都脱下了皮大衣。 

 

O lobo e as ovelhas 

As ovelhas não correram
quando o lobo chegou
apenas pararam de comer a relva
para se perfilar em parelhas
como algodão semeado 

Canícula!
“Que diabo de tempo!”
– uivou o lobo,
E as ovelhas despiram
seus casacos de pele 

 

为大平煤矿死难者而写 

一具尸体抬出来了,
又一具尸体抬出来了,
再抬出来的,
还是一具尸体,
乌黑,但坚硬,像劣质的煤块。 

你们,即使在爆炸中
也没有感到温暖的你们,
被丢进了炉火熊熊的火葬场。
黑色的烟雾,
把下过地狱的人送向天堂。 

而在人间,
寒风逼近,能源短缺。
火葬厂呢?
已被纳入国家的供暖系统。 

 

Para os mortos na Mina de Carvão Taping 

Os cadáveres foram carregados
um a um,
e o último a ser levado era apenas mais um.
Duros, escuros, como se fossem
carvão inútil. 

Ei, vocês, que nem expeliram o frio
quando da explosão
foram atirados no crematório.
A fumaça preta os levou ao paraíso,
as almas queimadas do inferno. 

Todavia, no mundo terrestre
o vento continua soprando frio e a energia
é cada vez mais objeto de cobiça.
O crematório? Insumo energético da China. 

 

白夜 

我的心中充满了黑暗
什么也看不见,也听不见,
好像一块黑布
蒙住了我的眼睛。
我渴望光明,永远的光明。
我对一位欧洲女诗人
诉说了我的苦闷和希望。
她告诉我:
在她那个寒冷的国家,
许多人因为漫长的光明,
不是精神失常,就是自杀。

 

Noite branca 

Tudo estava escuro no meu coração,
nada se via, nada se ouvia,
como se uma venda preta
me vendasse os olhos.
Quis a luz, luz para sempre.
Contei o que sentia a uma poetisa da Europa.
e ela me disse: no meu país, quase sempre frio,
muitas pessoas
ou ficam loucas, ou se suicidam,
devido à luz demasiado prolongada. 

 

阿姆斯特丹 

驱车来到阿姆斯特丹,
已近子夜。
性都的名声,让街灯变得暧昧。
甚至旅社老板的表情,
也像一滩精液。 

但什么也没有发生,对我来说。 

窗外,河流泛起清晨的反光
天空阴郁。在梵高纪念馆,
向日葵折断阳光,
在花瓶里成为姐妹。
夜空扭曲,
在月光中受孕的麦地,
卷起疯狂的波浪。 

从画家忧伤的自画像中
我拎出半只滴血的耳朵,回到街上,
发现阿姆斯特丹
人人都有完整而红润的器官。

 

Amsterdã 

Quando cheguei de carro a Amsterdã
já era meia-noite.
A reputada cidade do sexo
tornava ambíguas as luzes da rua.
Até o rosto do dono do hotel
insinuava prazer. 

Mas nada me aconteceu. 

O amanhecer refletia-se no rio
e o céu, muito nublado. No Museu Van Gogh,
os girassóis quebravam os raios de sol
para ficar irmanados num vaso.
Na noite distorcida, a terra de trigo,
grávida de luar,
ondulava enlouquecida.  

Do auto-retrato do pintor sombrio
retirei uma orelha, de verdade,
e voltei para a rua: todos estavam com
seus órgãos intactos e saudáveis. 

 

结局 

大约在冬季
你给我一块炙热的石头,
我把它放在左手,
又把它放在右手。 

日子翻来覆去,
石头渐渐变凉。
我的两只手
收藏的只是阴影。 

 

Fim 

Talvez no inverno
me tenhas oferecido uma pedra,
acesa, tão acesa que a guardava
ora na mão esquerda, ora na outra. 

Viraram-se os dias como páginas,
e a pedra, pouco a pouco, congelando.
O que as minhas mãos juntaram
acabou por ser apenas sombra. 

 

黃昏的雨 

你们敲打着屋顶和门窗,
多么急促,一群光着屁股的孩子
渴望着收留。 

而我不是河流,
不是大地,
甚至百孔千疮的身体
也不是一块海绵,
在水中,我只是一头
迅速腐烂的动物。 

风越来越大,
一双双渐渐粗大的手
抗拒着枯干,
紧紧地抓住屋檐,
不肯离去。 

 

Chuva ao fim da tarde 

As gotas da chuva batem no telhado, porta e janela,
com tanta pressa, como crianças nuas
rogando abrigo.  

Como não sou rio, nem sou terra,
nem o meu corpo cheio de buracos
é um pedaço de esponja,
em suma, não passo de um animal
que apodrece depressa
caso vivesse na água. 

Com o vento agora intenso,
os dedos da chuva tornam-se mais grossos,
avessos ao tempo estiado,
insistindo em agarrar-se
às goteiras do telhado.  

 

三月 

又是春天,
我又脱下了冬衣,
我又推开封锁的窗子。
身体内春雷轰鸣,
田野中小花绽开。 

每年的春天
都在重复中褪去花颜,
但我依旧不知道许多小花的名字,
就像从我眼前飘过的少女,
我不知道她们的芳名。

 

Março 

Eis mais uma primavera,
outra vez mais despi as roupas do inverno
outra vez mais abri a janela cerrada
Os raios da primavera rebentam no meu corpo
e as flores florescem nos campos úmidos. 

Todas as primaveras repetem o mesmo destino:
florir e murchar… florir e murchar…
no entanto ainda ignoro o nome de muitas flores,
tal como não sei como se chamam aquelas meninas
que por mim passam como nuvens.

 

咸鱼 

咸鱼如何翻生?
你曾经在水中翱翔,
寻找爱情的银针,曾经许下
海枯石烂的誓言,
曾经为俯视海平线,
跳出水面。 

如今,你在太阳下悬挂,
风,抽干你身体中的每一滴海洋。
命运强加给你的盐
腌制着大海以外的时间 

但你不肯闭上眼睛,
你死不瞑目,你耿耿于怀。
你看见屋檐的雨
一滴滴汇成江河,
一条咸鱼
梦想回到大海。 

 

Peixe salgado 

Como é que um peixe salgado retornaria à vida?
Em busca daquela agulha de prata
percorreu todo o mar, prometeu amor,
que só findaria, no caso de as montanhas despencarem
ou de o mar secar,
e para ver o horizonte, saltou da água. 

Agora, pendurado sob o sol,
deixa que a brisa o absorva até a última gota de mar.
E o sal que o destino lhe impõe
salga o tempo para além do mar. 

não conseguiu no entanto fechar os olhos
mesmo depois da morte.
Vendo que a chuva cai do telhado
para os rios,
o peixe amargo sonha
seu salgado regresso ao mar.  

 

Tradução: Yao Feng e Régis Bonvicino

 

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