SOBRE LAÍS CORRÊA DE ARAÚJO
Sob o sugestivo título Inventário, Laís Corrêa de Araújo reúne toda a sua lavra poética, que se iniciou em 1951 com Caderno de Poesia e se findou, ao menos até o momento, com Geriátrico, em 2002. Compõem suas obras completas apenas sete volumes, escritos ao longo de mais de cinqüenta anos, o que revela, ao público, uma autora que, além de ser concisa em seus poemas, é contida em sua produção, traço que a diferencia, um tanto, nas letras brasileiras, onde a quantidade de livros prevalece, acriticamente, sobre a qualidade dos textos, na maioria dos casos.
Laís Corrêa de Araújo pertence cronológica e literariamente à geração de Augusto de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos e Affonso Ávila, entre outros, que se lançou, grosso modo, no final dos anos de 1940 e começo dos anos de 1950. Talvez, essa mineira de Campo Belo, que reside há mais de meio século em Belo Horizonte, seja o semblante menos visível, ainda clandestino, de uma linhagem de autores, como os mencionados, que contribuíram para dar a poesia brasileira contemporânea, cada um à sua maneira, uma feição diversa da que havia proposto as gerações modernistas. Laís Corrêa de Araújo, além de poetisa, é ensaísta e, digamos, agitadora cultural. Entre os seus feitos, destacaria a fundação do Suplemento Literário de Minas Gerais, nos anos de 1960, e seu trabalho paciente de iluminação da obra de Murilo Mendes, também nos anos 1960 e 1970, quando ele ainda estava vivo e era pouco lido – respeitado quase que exclusivamente por seus pares, como por exemplo João Cabral de Melo Neto. Destacaria igualmente sua participação na Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, realizada, em 1963, em Belo Horizonte, com a participação dos concretistas de São Paulo, dos mineiros de Tendência (corrente a que ela se alinhava com Affonso Ávila), com a participação dos críticos Benedito Nunes e Luis Costa Lima e avulsos como o então jovem paranaense Paulo Leminski.
Esta pequena reconstituição do percurso da poetisa se faz necessária para que se possa dizer da índole de sua poesia, que procurou repensar, dentro dos limites locais e com suas limitações terceiro mundistas, o legado das vanguardas brasileiras ( Semana de Arte Moderna de 1922 e Antropofagia) e de certas vanguardas européias do início do Século XX. Sim, muito mais do que uma escritora voltada para o gênero, que tem se mostrado empobrecedor, como método poético ou crítico, Laís Corrêa de Araújo é uma autora voltada para os processos e movimentos de invenção, na arte. Seus dois primeiros volumes repetem, de certo modo, a trajetória de seus companheiros de geração, com datas um pouco mais tardias. Sua escritura começa então, em Caderno de Poesia e em O Signo e Outros Poemas, aderindo à forma do soneto e a outras formas fixas, ousando justamente em apresentar a condição feminina de maneira mais aberta. Pode-se dizer que Laís imprimia um tom muitas vezes coloquial para solapar, discretamente, estruturas formais enrigecidas. Leia-se, por exemplo, o poema “Oferta” (em O Signo) : “Toma minha boca / toma minhas mãos que voam carinhos / (...) / toma meu corpo, meu corpo que / se entrega nas noites sem rumo, / meu corpo de chuva e tarde, / meu corpo de passarinho caído...”.
É a partir de Cantochão (1965), com ressonância nos demais trabalhos, que a voz de Laís volta-se decididamente para as questões de vanguarda e invenção, nela conjugadas com engajamento esquerdista explícito, que apontei já nesta resenha. Laís Corrêa de Araújo foi concretista à sua peculiar maneira no momento histórico adequado, o que, diga-se, é raro pois, neste país pobre, ainda hoje encontramos modernistas, concretistas e etc. Laís encontrou no concretismo um território para sua substantividade, que permanceu, para além dele e de sua vida histórica (até o começo dos anos de 1980, digamos). A partir de Cantochão, a poetisa parece cumprir à risca um certo roteiro que havia traçado, então em tom mais elevado, ainda pouco original, no poema “Canção do participante” ( em O Signo): “Não quero mais esse dia / molhado de sol e quente. / Quero a noite e quero a fria / dor de ser gente...”.
Neste ponto, de Cantochão, onde começa a vanguarda explícita, vem à tona a pergunta; por que intitular uma reunião dos trabalhos de Inventário? Inventário tem um sentido jurídico inescapável: processo, com o fim de organizar a transferência do patrimônio de um morto a seus herdeiros. Pelo título se deduz que Laís pertence à uma geração humanista, que nutria desejos e utopias de transformação da realidade e do mundo. Mas, a resposta mais aguda vem do próprio poema “Inventário”, do já mencionado Cantochão: “... Todo o bem de raiz / (não deixo outras lavras) / eis o que é herança: / palavras...”. Num primeiro momento, poder-se-ia imaginar que a autora tem uma visão evolucionista da arte, uma visão de fé no progresso da arte e em seus herdeiros, o que, num segundo momento, desarticula-se numa viés irônico. Quais poetas, nesta quadra pós-moderna e makerteira de hoje, seriam capazes de herdar, politicamente, dísticos, como: “ Sócio do salário / no sarau do sangue” ou “ virtude da vindita / no vômito da violência”, do poema “Abecedardo”, incluso em Contachão? Ainda no próprio poema Inventário, e retornando a ele, encontraíamos respostas afiadas, contrastantes com os dias de hoje: “ Eis o que é a herança / sem o rumor dos cascos. / Umas faixas de som / e de ascos / Umas faixas de som / difuso e carregado. / Título público não / localizado...”.
Uma dicção por subtração. Sim Laís escreveu sua obra, sobretudo quando mais jovem, simultaneamente a poetas fortíssimos, com resultados inalcançáveis para os outros, como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes, sem contar os acertos de seus pares de geração. Com isso, penso, para se movimentar e forjar uma dicção própria, escreveu o que eu chamaria de uma poesia por subtração e, seguindo os ditames de Ezra Pound, por condensação. Criou para me valer aqui de um raciocínio de Marjorie Perloff para Robert Creeley, um minimalismo de câmera, que se traduz ele mesmo, em razão das circunstâncias, em um novo tipo de realismo com as palavras. E em um novo tipo de realismo em si mesmo. Leia-se o poema “A traficante”: “ O que sinto agora / neste instante / é que fui mera traficante./ Comércio de palavra sem unção. / Tudo é fácil demais /na minha mão...” (in Cantochão). No verso “comércio de palavra sem unção” explicita-se a época. Tome-se os sentidos de ungir: purificar, melhorar, fomentar. A poetisa reconhece, então, que o que escreve, embora mundano, é algo que não interage com o vida, apontando para o afastamento da poesia ela mesma do mundo. E em “unção” acabaremos por escutar “extrema-unção”, uma extrema-unção dupla: ao mundo e à poesia, incapaz de com ele interagir.
Depois de Cantochão, sem dúvida, o seu livro mais acabado, seguem-se cinco volumes: Decurso de Prazo (1988), Pé de Página (1995), Clips (2000) e Geriátrico (2002) Há um certo aprofundamento dos temas: “Gosto das palavras / infecto e nauseabundo / - palavras que silabam / em rude contraponto / a avaria do mundo...” (vocabulário, in Decurso de prazo). Portanto, permanecem a tensão e o paradoxo, a margura, o beco sem saída bem como a poética por subtração, que vai, paulatinamente, passar a refletir sobre a velhice e, nela, vai retormar o tema da herança, sempre com idéia muito nítida de balanço. Como se cada poema fosse um balanço de coisas e palavras. À maneira de Henriqueta Lisboa, sem, contudo enveredar no mundo sinestésico e labiríntico, como o da mineira de Formiga, essa mineira de Campo Belo deixa, no tom metalingüístico que marca a maior parte de suas peças, sua mensagem aos “herdeiros”, no poema “Escrita”, de Geriátrico : “... Palavras ou letras/ unem no coito subverso/ abaixo da luz escusas / sem uma pista a seguir / apenas enroladas em si / um álibi para a solidão”.
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