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Um Barco Remenda o Mar / Dez Poetas Chineses Contemporâneos (2007)


Um Barco Remenda o Mar:
Dez Poetas Chineses Contemporâneos

Organização Yao Feng e Régis Bonvicino

coleção sibila
direção Régis Bonvicino
Sibila <http://sibila.com.br>
direção Régis Bonvicino e Charles Bernstein
capa Ronaldo Fraga

姚風 ● Yao Feng

狼来了

狼来了,
羊们没有跑,
只是停止了吃草,
他们排成整齐的队列
像一垄垄棉花。

骄阳似火!
狼嚎叫了一声:
“真他妈热!”
所有的羊
都脱下了皮大衣。

O lobo e as ovelhas

As ovelhas não correram
quando o lobo chegou
apenas pararam de comer a relva
para se perfilar em parelhas
como algodão semeado

Canícula!
“Que diabo de tempo!”
– uivou o lobo,
E as ovelhas despiram
seus casacos de pele

为大平煤矿死难者而写

一具尸体抬出来了,
又一具尸体抬出来了,
再抬出来的,
还是一具尸体,
乌黑,但坚硬,像劣质的煤块。

你们,即使在爆炸中
也没有感到温暖的你们,
被丢进了炉火熊熊的火葬场。
黑色的烟雾,
把下过地狱的人送向天堂。

而在人间,
寒风逼近,能源短缺。
火葬厂呢?
已被纳入国家的供暖系统。

Para os mortos na Mina de Carvão Taping

Os cadáveres foram carregados
um a um,
e o último a ser levado era apenas mais um.
Duros, escuros, como se fossem
carvão inútil.

Ei, vocês, que nem expeliram o frio
quando da explosão
foram atirados no crematório.
A fumaça preta os levou ao paraíso,
as almas queimadas do inferno.

Todavia, no mundo terrestre
o vento continua soprando frio e a energia
é cada vez mais objeto de cobiça.
O crematório? Insumo energético da China.

白夜

我的心中充满了黑暗
什么也看不见,也听不见,
好像一块黑布
蒙住了我的眼睛。
我渴望光明,永远的光明。
我对一位欧洲女诗人
诉说了我的苦闷和希望。
她告诉我:
在她那个寒冷的国家,
许多人因为漫长的光明,
不是精神失常,就是自杀。

Noite branca

Tudo estava escuro no meu coração,
nada se via, nada se ouvia,
como se uma venda preta
me vendasse os olhos.
Quis a luz, luz para sempre.
Contei o que sentia a uma poetisa da Europa.
e ela me disse: no meu país, quase sempre frio,
muitas pessoas
ou ficam loucas, ou se suicidam,
devido à luz demasiado prolongada.

阿姆斯特丹

驱车来到阿姆斯特丹,
已近子夜。
性都的名声,让街灯变得暧昧。
甚至旅社老板的表情,
也像一滩精液。

但什么也没有发生,对我来说。

窗外,河流泛起清晨的反光
天空阴郁。在梵高纪念馆,
向日葵折断阳光,
在花瓶里成为姐妹。
夜空扭曲,
在月光中受孕的麦地,
卷起疯狂的波浪。

从画家忧伤的自画像中
我拎出半只滴血的耳朵,回到街上,
发现阿姆斯特丹
人人都有完整而红润的器官。

Amsterdã

Quando cheguei de carro a Amsterdã
já era meia-noite.
A reputada cidade do sexo
tornava ambíguas as luzes da rua.
Até o rosto do dono do hotel
insinuava prazer.

Mas nada me aconteceu.

O amanhecer refletia-se no rio
e o céu, muito nublado. No Museu Van Gogh,
os girassóis quebravam os raios de sol
para ficar irmanados num vaso.
Na noite distorcida, a terra de trigo,
grávida de luar,
ondulava enlouquecida.

Do auto-retrato do pintor sombrio
retirei uma orelha, de verdade,
e voltei para a rua: todos estavam com
seus órgãos intactos e saudáveis.

结局

大约在冬季
你给我一块炙热的石头,
我把它放在左手,
又把它放在右手。

日子翻来覆去,
石头渐渐变凉。
我的两只手
收藏的只是阴影。

Fim

Talvez no inverno
me tenhas oferecido uma pedra,
acesa, tão acesa que a guardava
ora na mão esquerda, ora na outra.

Viraram-se os dias como páginas,
e a pedra, pouco a pouco, congelando.
O que as minhas mãos juntaram
acabou por ser apenas sombra.

黃昏的雨

你们敲打着屋顶和门窗,
多么急促,一群光着屁股的孩子
渴望着收留。

而我不是河流,
不是大地,
甚至百孔千疮的身体
也不是一块海绵,
在水中,我只是一头
迅速腐烂的动物。

风越来越大,
一双双渐渐粗大的手
抗拒着枯干,
紧紧地抓住屋檐,
不肯离去。

Chuva ao fim da tarde

As gotas da chuva batem no telhado, porta e janela,
com tanta pressa, como crianças nuas
rogando abrigo. 

Como não sou rio, nem sou terra,
nem o meu corpo cheio de buracos
é um pedaço de esponja,
em suma, não passo de um animal
que apodrece depressa
caso vivesse na água.

Com o vento agora intenso,
os dedos da chuva tornam-se mais grossos,
avessos ao tempo estiado,
insistindo em agarrar-se
às goteiras do telhado.

三月

又是春天,
我又脱下了冬衣,
我又推开封锁的窗子。
身体内春雷轰鸣,
田野中小花绽开。

每年的春天
都在重复中褪去花颜,
但我依旧不知道许多小花的名字,
就像从我眼前飘过的少女,
我不知道她们的芳名。

Março

Eis mais uma primavera,
outra vez mais despi as roupas do inverno
outra vez mais abri a janela cerrada
Os raios da primavera rebentam no meu corpo
e as flores florescem nos campos úmidos.

Todas as primaveras repetem o mesmo destino:
florir e murchar… florir e murchar…
no entanto ainda ignoro o nome de muitas flores,
tal como não sei como se chamam aquelas meninas
que por mim passam como nuvens.

咸鱼

咸鱼如何翻生?
你曾经在水中翱翔,
寻找爱情的银针,曾经许下
海枯石烂的誓言,
曾经为俯视海平线,
跳出水面。

如今,你在太阳下悬挂,
风,抽干你身体中的每一滴海洋。
命运强加给你的盐
腌制着大海以外的时间

但你不肯闭上眼睛,
你死不瞑目,你耿耿于怀。
你看见屋檐的雨
一滴滴汇成江河,
一条咸鱼
梦想回到大海。

Peixe salgado

Como é que um peixe salgado retornaria à vida?
Em busca daquela agulha de prata
percorreu todo o mar, prometeu amor,
que só findaria, no caso de as montanhas despencarem
ou de o mar secar,
e para ver o horizonte, saltou da água.

Agora, pendurado sob o sol,
deixa que a brisa o absorva até a última gota de mar.
E o sal que o destino lhe impõe
salga o tempo para além do mar.

não conseguiu no entanto fechar os olhos
mesmo depois da morte.
Vendo que a chuva cai do telhado
para os rios,
o peixe amargo sonha
seu salgado regresso ao mar. 

Tradução: Yao Feng e Régis Bonvicino

北島Bei Dao

Bei Dao, “Ilha do Norte”, pseudônimo de Zhao Zhenkai [趙振開], nasceu na cidade de Pequim em 1949. Serviu na Guarda Vermelha, indispôs-se com a Revolução, foi “reeducado”, trabalhou na construção civil: ocupações incompatíveis com a importância desse extraordinário escritor para a poesia chinesa contemporânea e para a poesia do mundo. Seus versos são reflexivos, revelam a natureza do ser, identificam feridas emocionais e se solidarizam com outras almas aflitas, por meio, muitas vezes, de descrições “atonais” da paisagem.

Em 1978, Bei Dao ajudou a fundar a revista extra-oficial Hoje [今天], que se tornou o principal fórum de discussão dos poetas menlong, grupo ridicularizado pelo establishment literário chinês devido a sua linguagem “obscura” e não calcada no realismo socialista. Em 1989, ele foi acusado de incitar a revolta estudantil na praça da Paz Celestial, pois os versos de um de seus poemas, “Proclamação” [回答], estavam nos estandartes carregados pelos protestantes: “Para não me ajoelhar na Terra/ contrastando assim com a elevação do carrasco/ que impede os ventos de liberdade”.

Exilado, Bei Dao viveu e lecionou na Inglaterra, Alemanha, Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda, França e, mais recentemente, nos Estados Unidos. Sua obra já foi traduzida para trinta idiomas, mas esta é sua primeira antologia em português. Em língua inglesa, são cinco volumes de poesia – Unlock (2000), Landscape over zero (1996), Forms of distance (1994), Old snow (1992), The August sleepwalker (1990) – um de contos – Waves (1990) – e dois de ensaios – Midnight’s Gate (2005) e Blue house (2000). Recebeu vários prêmios, entre eles o prêmio literário Jeanette Schocken (Alemanha, 2005), o Argana de poesia internacional (Marrocos, 2002) e o Tucholsky da pen sueca. É membro honorário da American Academy of Arts and Letters e um candidato natural ao Nobel de literatura.

Em 2006, Bei Dao recebeu permissão para voltar a viver na China.

黑色地圖
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寒鴉終於拼湊成
夜﹕黑色地圖
我回來了——歸程
總是比迷途長
長於一生

帶上冬天的心
當泉水和蜜制藥丸
成了夜的話語
當記憶狂吠
彩虹在黑市出沒

父親生命之火如豆
我是他的回聲
為赴約轉過街角
舊日情人隱身風中
和信一起旋轉

北京﹐讓我
跟你所有燈光乾杯
讓我的白髮領路
穿過黑色地圖
如風暴領你起飛

我排隊排到那小窗
關上﹕哦明月
我回來了——重逢
總是比告別少
只少一次
< /p>

Mapa negro

Ao cabo, corvos frios juntam
a noite: um mapa negro
voltei para casa – pelo caminho avesso
mais longo do que o errado
longo como a vida

traga o coração do inverno
quando a água mineral e as anfetaminas
tornam-se as palavras da noite
quando a memória late
um arco-íris assombra um mercado negro

meu pai, vida-faísca: mínima como um grão
sou seu eco
virando a esquina dos encontros
uma ex-amante esconde-se numa
lufada de cartas revoltas

Pequim, deixe-me erguer
um brinde às suas luzes
deixe que meu cabelo branco aponte
o caminho pelo mapa negro
como se uma tormenta a fizesse voar

espero na fila até que a pequena janela
se feche: Ó o brilho da lua
voltei para casa – reuniões
significam menos do que adeuses
ao menos

Tradução: Régis Bonvicino, com supervisão de Yao Feng

拉姆安拉
& amp;nbsp;

在拉姆安拉
古人在星空對奕
殘局忽明忽暗
那被鐘關住的鳥
跳出來報時

在拉姆安拉
太陽象老頭翻墻
穿過露天市場
在生鏽的銅盤上
照亮了自己

在拉姆安拉
諸神從瓦罐飲水
弓向獨弦問路
一個少年到天邊
去繼承大海

在拉姆安拉
死亡沿正午播種
在我窗前開花
抗拒之樹呈颶風
那狂暴原形
< /p>

Ramalá

Em Ramalá
os antigos jogam xadrez no céu estrelado
o fim de jogo move
uma ave imóvel num relógio
salta para dizer as horas

Em Ramalá
o sol sobe o muro como um velho
e segue pelo mercado
aberto espelhando-se aceso
numa placa de cobre oxidado

Em Ramalá
os deuses bebem água de um jarro de terra
um arco indaga de uma corda sobre as rotas
um garoto se prepara para herdar o oceano
da margem do céu

Em Ramalá
a morte lança sementes no zênite
a morte floresce defronte minha janela
árvores duras revelam
a forma violenta, original de um tornado

Tradução: Régis Bonvicino e Maria do Carmo Zanini, com supervisão de Yao Feng

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