O poeta
chileno Pablo Neruda (1904-73), ganhador do Prêmio Nobel de
Literatura de 1971, morreu num 23 de setembro, em Santiago, oito dias
após o golpe desfechado por Augusto Pinochet contra o Governo da Unidade
Popular de Salvador Allende e do falecimento/suicídio deste. A notícia
da morte de Neruda correu de boca em boca por Santiago. Quem ousaria,
com aqueles tiroteios nas ruas e com os cadáveres jogados nas calçadas e
sarjetas, ir aos funerais de Neruda? Muitos foram. Quando o caixão
deixou o velório, a caminho do cemitério, a multidão foi se achegando ao
redor do féretro: murmurava versos da “Canção desesperada”, sobretudo, a
estrofe “Abandonado como um cais ao amanhecer/ É hora de partir, oh
abandonado!”. Pouco depois, Pinochet mandou destruir os livros de Neruda
e também parte das obras de arte que se encontravam em La Chascona, a
residência do poeta.
Entre as obras de Neruda, poeta prolífico,
destacam-se:
Crepusculário (1924),
Veinte poemas de amor y una canción
desesperada (1924),
Residencia
en la Tierra I (1935),
Residencia
en la Tierra II (1935),
Canto
general (1950),
Canción de
giesta (1960),
Las piedras de
Chile (1961),
Cantos
ceremoniales (1961),
Fin de
mundo (1969),
Aún
(1969),
Incitación al nixonicidio y
alabanza de la Revolución Chilena (1973) e o póstumo
Confieso que he vivido (1974).
Alturas de Machu PichuPablo NerudaNo eras tú,
muerte grave, ave de plumas férreas,
Não eras tu, morte grave, ave de
plumas férreas,
la que el pobre heredero de las habitaciones
a
que o pobre herdeiro das casas
llevaba entre alimentos apresurados,
levava
entre alimentos apressados,
bajo la piel vacía:
sob a pele vazia:
era
algo, un pobre pétalo de cuerda
exterminada:
era algo, uma pobre
pétala de corda
exterminada:
un átomo del pecho que no vino al
combate
um
átomo de tórax que não veio ao
combate
o el áspero rocío que no
cayó en la
frente.
ou o áspero orvalho que não caiu no
rosto.
Era
lo que no pudo renacer, un pedazo
Era o que não podia renascer, um
pedaço
de la pequeña muerte sin paz ni
territorio:
da pequena
morte sem paz nem
território:
un hueso, una campana que morían
um
osso, um sino que morriam
en él.
nele.
Yo levanté las vendas
del yodo,
Eu levantei as vendas do iodo,
hundí las manos
mergulhei
as mãos
en los pobres dolores que mataban
nas pobres dores que
matavam
la muerte,
a morte,
y no encontré en la herida sino
una
e só encontrei na ferida uma
racha fría
rajada fria
que
entraba por los vagos intersticios
que entrava pelos vagos
interstícios
del alma.
da alma.
Tradução: Régis Bonvicino