Fortuna Crítica
 
Conteúdo desta seção:
A POESIA DE RB 
Michel Delville
Boris Schnaiderman
Carlos Drummond de Andrade
Eduardo Milán
Expresso, Lisboa
Flora Süssekind
Ignacio Vidal-Folch
Iván Humanes Bespín
João Adolfo Hansen
José Paulo Paes
Marjorie Perloff
Paulo Franchetti
Paulo Leminski
Rolando Sánchez Mejías

ATÉ AGORA 
Poesia como espaço de intervenção

CADENCIANDO-UM-NING, UM SAMBA, PARA O OUTRO 
Marjorie Perloff (2)

CÉU-ECLIPSE / SKY-ECLIPSE 
Franscisco Faria
Marcelo Coelho
Wilson Bueno

ESTADO CRÍTICO 
Orelha de Estado Crítico

ME TRANSFORMO OU O FILHO DE SÊMELE 
Rômulo Valle Salvino (3)

NOTHING THE SUN COULD NOT EXPLAIN: 20 CONTEMPORARY BRAZILIAN POETS 
Douglas Messerli
Guy Bennett
Rômulo Valle Salvino (2)

PÁGINA ÓRFà
A palavra-carcaça de Bonvicino
João Adolfo Hansen
A poesia do Agora
Aurora F. Bernardini
Altri Orizzonti
Semicerchio
Bonvicino cria entre o Refinamento e a Sucata
Alcides Villaça
Cinema de Palavras
De Ugo Giorgetti para Régis
Correio Braziliense
De Alessandro Zocca para Régis
É IMPACTANTE, É NOVO
De Paulo Franchetti para Régis
E O MUNDO LATEJA
De Nunca para Régis
ENTREVISTA AO PORTAL IG
ESPAÑOL
Página huérfana
HENRI DELUY
IN A STATION OF THE METRO
Rodrigo Rojas
IT'S NOT LOOKING GREAT! EM FINLANDÊS
Publicado na revista Tuli & Savu
Mundo Órfão
Alécio Cunha
NEM UMA DUPLA CABEÇA DE HERMES
De Nunca para Régis
Página Órfã
Paulo Franchetti
Página Órfã
PALAVRA-PORRADA CONTRA OS CONTENTES
Wilson Bueno
Sentimento do mundo
Silvano Santiago
SÉRIE POEMA DEUS
Trabalhos de León Ferrari
TEM UMA COISA DE KAFKA NISSO
De Sérgio Medeiros para Régis
VEJA RECOMENDA
Bella.com

REMORSO DO COSMOS (DE TER VINDO AO SOL) 
Alcir Pécora
Aurora F. Bernardini
Solange Rebuzzi

THE POETRY OF RÉGIS BONVICINO 
A Poesia de Régis na Rússia
Hasta Morirla
Odile Cisneros (1)
Poesia Brasileira em Barcelona
Carlito Azevedo
Eduardo Milán
Eduardo Pitta
Régis Bonvicino em El País/Espanha
Odile Cisneros (2)
Un Poeta Brasileño: Régis Bonvicino
Rômulo Valle Salvino

UM BARCO REMENDA O MAR 
Aurora Bernardini

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Franscisco Faria
ESPAÇO, TEMPO E TEXTO, NO ESMERIL DE IMAGENS

Em Céu-eclipse, um aspecto visual, quase cinematográfico, do texto se reafirma a cada página. Imagens vão surgindo e desaparecendo gradualmente, como em uma seqüência de fades. Assim, leio o começo do poema "A esmo" como uma seqüência possível de 2 imagens que, surgindo de um início sonoro, lentamente se aclaram e desaparecem: "A esmo / neste desterro / pios / / areia fina / em ponta das canas / andando / / árvore branca / estrias / contra o horizonte firme (...)". O pulso gradual de imagens prossegue, a escritura vai construindo sua ambiência por meio dessas interrupções; o movimento é lento, quase sensual (em "A esmo", a impressão é ressaltada pelo fato de que as imagens parecem "tomadas" de vários ângulos da vasta Ilha de Nossa Senhora do Desterro).

Penso que um dos aspectos centrais da estética moderna é o entendimento e o uso radical do espaço. Do cubismo à land art, do suprematismo à arte mínima, há diferentes maneiras de se pensar a intensidade e o significado do espaço. Na poesia, essa vertigem começou com Mallarmé. No Brasil, a vertente ganha forma definitiva e programática na poesia concreta. Neste século vertiginoso, em que praticamente todos os aspectos da vida humana sofreram uma formidável compressão do tempo (e, simultaneamente, uma expansão de suas possibilidades espaciais), é o tempo, ele mesmo, que tende a desaparecer no horizonte de eventos visuais.

Artistas de sensibilidade peculiar, criando a contrapelo, construíram uma obra que resgata o tempo do abismo. Jean-Luc Godard, um deles, reinventou a linguagem cinematográfica ao dar ênfase a técnicas de extensão e prolongamento do tempo (longos tracking shots e fraturas narrativas no tempo contínuo são apenas duas delas). Fez isso de tal forma que a experiência temporal passou a ser a estrutura e também a construtora do sentido. Em Hélas pour Moi, filme de 93, um plano-seqüência, retomado cada vez mais prolongadamente em um trecho da fita, transforma o curto espaço do percurso de um ciclista em uma vastidão interminável. Inicialmente claustrofóbico, por sua repetitiva circularidade, o espaço ganha inusitada extensão por força do prolongamento temporal (Godard, com isso, reverte a fórmula do Romantismo francês, que havia transformado rêve, sonho, em rêverie, devaneio).

Em Céu-eclipse, a "montagem" do texto em fades sucessivos tem o mérito de estender o tempo no poema. Nos "vazios" entre uma imagem e outra, surge um intervalo onírico, em um movimento contínuo de clareação e escurecimento que ecoa, inclusive, no título do livro. Na capa, não por acaso, aparecem relâmpagos noturnos, iluminando temporariamente o breu. Ao longo do livro a técnica se adensa, percorrendo várias e diversas situações. Arrisco-me a dizer que a nova poesia de Régis aparelhou-se em um prolongado diálogo com a poesia experimental norte-americana contemporânea, mas soube extrair-lhe uma substância original. Lá os cortes são mais abruptos, o texto tem cesuras radicais. O olhar são instantâneos sucessivos; o som é polifônico. O "desenho", quase cubista; o tempo, ricocheteando entre uma aresta e outra, simultâneo. É uma eficaz metonímia do vertiginoso mundo pós-industrial.

Já Régis disso conseguiu compor um método de expansão e fluidez do tempo. Reinventou sua poesia para expressar um outro ambiente. Quando se debruça não somente sobre panoramas, mas também sobre situações sociais extremas, que estão presentes em cada esquina e canto das cidades brasileiras, Régis trabalha uma nova forma de "estetização do social" (um momento intenso se inicia com o poema "Para Ser Incomum" e só se desanuvia com "Valor Total"). Em entrevista recente à Cult, o poeta diz que Robert Kurz sintetiza suas preocupações com a frase: "Se a arte, a poesia, não é mais capaz de refletir positivamente o todo cindido, que o faça negativamente, ao elevar à consciência a precariedade estética do mundo economicista". Adiante, Régis reafirma que aspira a uma poesia "que se supere a si mesma como crítica da própria desestetização social". O sentido de "estetização social" está estabelecido por este contexto. A voragem da arte-mercadoria destrói no estético seu conteúdo crítico, e vai confiná-lo na circularidade do consumo.

Tematizar o social não significa necessariamente abordá-lo criticamente. Várias fórmulas, que vão de piegas a retóricas (poemas-manifesto), comprovam-no. Régis, ao contrário, quando "infla" o tempo de suas imagens e as coloca em movimento, consegue duas coisas: a primeira, expandir o conteúdo da reflexão, ao harmonizar contatos entre situações estanques (paradoxos ganham, com o movimento e as aproximações, um novo paradigma). A segunda, mais secreta, e que está no intervalo onírico, é reencontrar um índice de esperança ali onde ele pode estar oculto pela imobilidade e a indiferença (aqui, as escolhas que o poeta faz são fundantes). Seu novo trabalho, mais que um método, propõe a recuperação de uma visão ética. Ao longo de Céu-eclipse, um sentido de presença vai se encorpando, conferindo à poesia um registro mais existencial que literário. Ao se voltar para a utopia, descobrindo nela um nexo, ao se voltar para um conteúdo crítico da estética, relativizando o peso do momento formal, Régis indica um caminho renovado, mais comprometido, para a poesia brasileira.

Para uma sociedade que reserva a seus cidadãos espaços cada vez mais estanques e intransponíveis, em contraste com sua terra de fronteiras topográficas tão lábeis e fluidas, a utopia ressurge nessa poesia como valorização da expansão do tempo e do percurso, uma operação estética que me é, como artista plástico, particularmente fecunda (Régis nos disse que via Céu-eclipse como "um livro esfiapando o contraste esmero/ruína" - o poema é um esmeril, lapidando lentamente restos de imagens). O poeta tenta conectar espaços cindidos (testemunho possível do conflito resultante desse labor temos no poema "Luz"). Seu olhar ousa se demorar sobre suas imagens, dando-lhes movimento (é de inércia que a miséria deste país é feita), e, no confronto dos textos, insinua-se uma alternativa de liberdade e de (auto)superação.

Nesta entrevista a Musa, Régis Bonvicino diz que Céu-eclipse foi pensado "radicalmente para além da fronteira literária". Não há dúvida. Penso, mesmo, que se refere a uma utopia reencontrada, não àquela utopia modernista que se hipostasiava no futuro (utopia como fim), mas à utopia em uma justeza, um futuro no presente, utopia como presença, utopia (e poesia) como princípio.

Francisco Faria


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