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Paul Hoover
Entrevista de Paul Hoover a Régis Bonvicino

Paul Hoover discute, nesta entrevista, a viagem em curso de Barack Obama ao Afeganistão, Iraque, Israel, Alemanha, França e Inglaterra. Não vou antecipá-la, justamente porque é um panorama amplo e, ao mesmo tempo, profundo das eleições de novembro e do próprio país. Hoover é professor de literatura, poeta e editor de uma das principais antologias de poesia norte-americanas recentes: Postmodern american poetry (Nova York, W.W. Norton, 1994) – um best-seller nos Estados Unidos. É, também, tradutor de Friedrich Hölderlin e de poetas vietnamitas. Reside, na grande San Francisco, com sua companheira, a poeta Maxine Chernoff. Na entrevista, esse antigo militante do Partido Democrata fala de suas expectativas e reservas em relação a Barack Obama, que, se eleito, herdará um país em ruínas, de acordo com suas palavras.
Lluís Bassets, editor-adjunto do jornal espanhol El País, afirma que, apesar da recessão econômica profunda, a questão internacional está no centro das eleições de novembro dos Estados Unidos. Bassets admite a existência de uma Doutrina Obama, inspirada no realismo da Doutrina Truman, para, no caso específico do candidato democrata, concluir que seu foco será o Afeganistão e o Paquistão, em virtude dos novos avanços nucleares da Rússia de Putin e Medvedev. Não diverge muito de Paul Hoover, que, no fundo, aponta mudança do hard power (poder do canhão) para o soft power (poder da sedução), com a eventual eleição de Obama. Todavia, Hoover espera mais do candidato, ou seja, um verdadeiro resgate dos valores democráticos, renegados por Bush, um homem de extrema-direita, “influenciado”, segundo ele, por seu avô, o senador Prescott Bush (1895-1972). Prescott, como apurou detalhadamente o jornal inglês The Guardian, em 2004, através de reportagem de Ben Aris e Duncan Campbell, “lavava” dinheiro para Adolf Hitler por meio do banco Union Banking Corporation, de Nova York, em sociedade com o banco alemão de August Thyssen. Prescott Bush recebia o dinheiro de Hitler e o reenviava, “limpo”, para Thyssen, na Alemanha, através de Bank voor Handel, da Holanda. Suas atividades ostensivas foram objeto de processos judiciais contra ele nos Estados Unidos, em 1942, que, no entanto, levaram-no a “lavar” o dinheiro nazista na clandestinidade.

RÉGIS BONVICINO: Como você vê e avalia a viagem de Barack Obama ao Afeganistão, Iraque, Jordânia, Israel, Alemanha, Inglaterra e França?
PAUL HOOVER: É difícil avaliá-la, enquanto ocorre. No entanto, ele é um político extraordinário, um líder nato, com princípios sólidos. Espero, em conseqüência, que demonstre como um presidente norte-americano deve agir, ou seja, dialogando com outros líderes. Quando John McCain viajou recentemente ao Iraque, não fez sentido algum, para os norte-americanos e para os estrangeiros. A viagem de Obama deve, deste modo, mostrar que faz sentido político. Aliás, houve disputa acirrada dos veículos de comunicação para acompanhá-lo – ao contrário do que se passou com McCain. A viagem já provoca efeitos internos e externos: Bush anunciou, agora, que pretende “dialogar”, sobre a questão das armas nucleares, com Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, justamente para solapar a iniciativa de diálogo de Obama – que a defende desde que foi eleito para o Senado. O presidente do Iraque, Mohammed Maliki, aproveitando a presença de Obama, pediu a imediata retirada das tropas americanas de seu país. Ele pode ter sido “teleguiado” pelo governo Bush, ou seja, orientado a criar um “pretexto” para que o próprio governo Bush saia minando a candidatura Obama. É um jogo perigoso. A principal mensagem de Obama é a de que não vai haver mais guerras por petróleo e que, caso eleito, vai investir em outras fontes de energia. Todavia, as bases militares lá instaladas – mesmo depois de os Estados Unidos deixarem o país – permanecerão para vigiar os poços (de petróleo). É tudo muito complexo e, ainda, obscuro.

RB: Como você antevê a relação de um governo Obama com a América Latina?
PH: Os Estados Unidos não deixarão, infelizmente, seu papel de cães de guarda do Ocidente e, na verdade, do mundo. Há dezessete poderosos radares norte-americanos instalados na América Latina e no Caribe. O país tem autorização para criar bases avançadas, por meio de tratados, caso necessário, na Colômbia, no Equador, no Peru, no Paraguai e em outros lugares. Há um enorme posto militar no Panamá e a Soto Caño Air Base in Palmerola, em Honduras. Há Guantánamo, em Cuba, que é um dos maiores desastres da humanidade em termos de infração aos direitos humanos. A Doutrina Monroe está viva (nota do entrevistador: ler “O destino Prudêncio do democrata Obama”, em outra coluna). Certas partes da América Latina serão celeiros de mão-de-obra barata. Discordo dessas políticas e, sobretudo, das interferências da CIA, no campo econômico, obrigando os presidentes latino-americanos a se submeterem aos interesses comerciais estadunidenses e de suas ingerências políticas. Em certo aspecto, George Bush arranhou a Doutrina Monroe, porque desacreditou o modelo da própria república norte-americana (democracia “verdadeira” e mercado), como superior e eleita por Deus para domesticar as outras. Al Qaeda é usada, por Bush, como outros presidentes se utilizaram da “ameaça comunista”, para conquistar espaços comerciais estratégicos do capitalismo global no mundo e, agora, para reforçar a presença de Israel, como país, no Oriente Médio. Os Estados Unidos não têm rivais ideológicos: nós somos nossos piores e maiores inimigos.    

Prescott Bush e a causa nazista
                    
RB: Você acha que o apoio da escritora Camille Paglia (centro) e de Susan Eisenhower, neta do presidente Eisenhower (direita) a Obama, revela a geléia geral ou estado de confusão dos norte-americanos ou representa uma mudança real?
PH: Esperamos muito que Barack Obama seja o candidato ideal que ele parece ser. A poeta Maxine Chernoff, minha companheira, e eu o apoiamos desde o começo de sua campanha e continuaremos o apoiando contra McCain. Ele é a melhor hipótese (possibilidade de vitória, ideologia) para o Partido Democrata reverter o fascismo do governo Bush-Cheney, dos neoconservadores, dos grandes interesses do petróleo e do fundamentalismo cristão. Ele percebe corretamente que a eleição terá que ser ganha unificando as forças do bom senso em torno do interesse público. George Bush e Dick Cheney pertencem à extrema direita; não são conservadores no sentido tradicional (não-intervenção do governo na economia, dívida nacional pequena, direitos individuais e o direito à privacidade). Eles têm trabalhado explicitamente contra esses valores. Por isso muitos cidadãos americanos da direita e da esquerda irão votar em Obama. Camille Paglia é, na verdade, uma pessoa de direita. Fico contente em saber que ela apóia Obama. Se você acompanhou o mapa político durante a primeira fase da contenda, deve ter notado que Obama o tem mudado. Ele conseguiu ganhar no Oeste e, até certo ponto, também no Sul, isto é, em estados tradicionalmente republicanos. O país está mudando e um dos motivos dessa mudança é o desastroso governo Bush II. Já não é mais uma questão de direita ou esquerda, mas de se um novo governo está disposto a cuidar dos cidadãos, proporcionando-lhes um programa de saúde nacional, respondendo (e evitando) a desastres como Katrina, e criando uma economia forte, baseada em tecnologias sustentáveis, a favor do meio-ambiente. Acredito que Obama possa representar mudança real, com uma ressalva: não é possível ganhar uma eleição nacional nos Estados Unidos sem, de certa maneira, “render-se” aos grandes interesses. Os Estados Unidos são um país de interesses escusos. Todavia, as massas que ele despertou tornaram-se um grupo poderoso de interesses – que podem neutralizar os escusos. Para dar um exemplo de como Obama atende a esses interesses “escusos” também: recentemente, ele votou a favor da renovação do FISA (Foreign Intelligence Surveillance Act, Estatuto de Vigilância do Serviço Secreto Internacional), que protege as companhias telefônicas de serem processadas (já existem quarenta processos em andamento contra tais companhias por ajudarem a espionar cidadãos americanos). Todos os senadores democratas que concorriam contra ele, na primeira fase da eleição, incluindo Hillary Clinton, votaram contra essa medida. O estatuto legaliza uma prática inconstitucional, que Obama já havia denunciado. Já ouvi pessoas falarem que o voto favorável de Obama ao FISA, nesse caso, é politicamente motivado, para ele não parecer previsivelmente liberal demais, mas a base de apoio liberal está bastante inconformada com esse voto. A perda de integridade é o mesmo tipo de erro que os democratas cometeram nas últimas duas eleições presidenciais, especialmente John Kerry. Às vezes, é preciso chamar o fascismo pelo nome. Não sei se os brasileiros sabem que o avó de Bush, Prescott Bush, trabalhou ativamente num banco americano, lavando dinheiro para Hitler e a causa nazista.

O Império autofágico

RB: Você concorda com a seguinte declaração do escritor Russell Banks: “Não vejo um político norte-americano suscitar tamanho entusiasmo entre os jovens desde Robert Kennedy, em 1968, antes de seu assassinato. Ninguém, desde Bobby, conseguiu motivar ricos e pobres, brancos, negros e hispânicos, numa coalizão inédita desde Franklin Roosevelt”?
PH: Sim, eu concordo. Era estudante universitário em 1968, quando políticos como Eugene McCarthy e George McGovern estavam se candidatando à presidência com uma plataforma política pacifista. Havia muitas pessoas novas nessa época, e, agora, também, pois, os filhos da geração Baby Boom são numerosos. É um momento propício para os jovens atuarem, do mesmo jeito que seus avós o fizeram. Os avós eram muito sensíveis a questões raciais e outras divisões de identidade, mas eles agora estão se retirando da cena política. É claro que estamos preocupados com a segurança pessoal do candidato Obama. Todos sabemos o porquê dos assassinatos dos Kennedy e de Martin Luther King e quem foram seus autores. Por isso é necessária uma coalizão. Tanto conservadores quanto liberais reconhecem o problema da máquina industrial e de guerra. No governo Bush, 52% do orçamento são destinados ao exército. Se apenas uns 10% fossem destinados à saúde, não haveria problemas de atendimento.

RB: Qual tipo de política econômica os eleitores esperam de Obama?
PH: A maioria das montadoras (General Motors, Ford) nos Estados Unidos irá à falência em cinco anos se não mudar seu paradigma. Como no Brasil, precisamos de carros pequenos, flex, movidos a álcool, de alto rendimento de combustível e baixas emissões de poluentes. A tecnologia ecológica resulta mais persuasiva do que um galão de gasolina, que custa cinco dólares. A antiga ordem mundial está chegando ao fim, porque até os tradicionalistas, nas fazendas, estão se conscientizando a respeito do aquecimento global e suas conseqüências. Os produtos agrícolas são a maior fonte de riqueza de exportação dos Estados Unidos. Quando as colheitas se perdem por causa de inundações e secas provocadas pelo aquecimento global, o jogo dos estados republicanos termina. De fato, já terminou. Obama (e mesmo McCain) assumirá os compromissos necessários para alterar esse quadro e lidar com os grandes interesses do petróleo, fazendo-os ver que precisam buscar novos rumos. A atenção irá mudar da máquina industrial e da máquina de guerra para a reconstrução socioeconômica do país. Não haverá mais Katrinas, mais desabamentos de pontes em Minneápolis, mais escândalos bancários, como no caso das hipotecas de Bush (aliás, cada um dos governos republicanos tem o seu escândalo particular nessa área). É a hora de ganhar dinheiro fazendo as escolhas ecológicas certas e não à base de um capitalismo selvagem, petrolífero.

RB: Obama irá mesmo retirar as Forças Armadas do Iraque em dezesseis meses?
PH: Existe um grande problema em relação à essa promessa de Obama. Inclusive, quando terminarmos a guerra no Iraque, e a luta irá terminar, os Estados Unidos não irão abandonar as quatro grandes bases militares que começaram a construir, quando o país foi ocupado – elas serão as “guardiãs” do petróleo – por incrível que pareça. Cada uma dessas bases alberga 16 mil pessoas. Isso levanta a questão de quanto Obama é realista ou não em relação a essa questão. Hoje em dia, os Estados Unidos têm bases militares, às vezes várias bases, em 78 países do mundo. É uma potência mundial implacável e impiedosa, e o dinheiro gasto para dominar o mundo está liquidando a vida dos cidadãos americanos e dos cidadãos do mundo. Essa é a primeira geração estadunidense pós-Segunda Guerra Mundial que terá menos sucesso na vida do que a geração precedente, por problemas da educação e da economia, e poderá ser muito pior. O país está em decadência, porque não possui valores éticos. A oligarquia que o domina pensa em termos globais, atua em termos globais e mora em comunidades fechadas com grades. Por que Salvador Allende (1908-1973) foi assassinado em – prestem atenção – 11 de setembro de 1973, no Chile? Porque os interesses da Pepsi-Cola estavam ameaçados pela nacionalização. Ele foi eleito, em 1970, pela Unidade Popular de esquerda, e promovia reformas sociais em seu país. As coisas hoje em dia são muito parecidas.

Os democratas aprenderam a arrecadar fundos

RB: O que você acha que Obama irá fazer em relação à questão candente de Cuba?
PH: Obama irá normalizar relações com Cuba no seu primeiro mandato e o intercâmbio comercial irá recomeçar.

RB: O que você gostaria que Obama fizesse pelas artes?
PH: Espero que haja fundos para todo tipo de grupos necessitados, necessários e meritórios, de grupos de dança até orquestras sinfônicas. Grupos de arte erudita.

RB: Qual o legado de George Walker Bush?
PH: O de ser o pior presidente na história dos Estados Unidos. Ele não pode fazer um discurso em qualquer lugar do país sem ser atacado como criminoso de guerra, quero dizer, em qualquer lugar que não seja uma base militar. O país levará anos para se recuperar de seus dois mandatos.

RB: McCain tem possibilidades de vencer?
PH: Infelizmente sim. Mas os democratas agora já estão conscientes da situação e começaram a arrecadar fundos – o que não sabiam fazer, e Obama sabe. Sem dinheiro não se ganha eleição aqui. Tudo se torna mais possível com fundos suficientes e um candidato inteligente e organizado como Barack Obama. McCain está muito cansado e se irrita facilmente durante as viagens de campanha. Até o fato de McCain ser o candidato republicano mostra a força de Obama. McCain é o mais “liberal” que os republicanos podem oferecer, mesmo defendendo guerras. E muitos republicanos não irão sair de suas casas para votar nele ou irão votar no candidato independente Bob Barr. Ralph Nader poderá representar um problema para Obama, do mesmo modo que o foi para Al Gore, em 2000. A amargura da experiência Bush é tão grande que, excetuando algum grande escândalo, espera-se que Obama ganhe com 60% dos votos – o que agora pode ainda não estar claro para os estrangeiros em razão da “máquina de desqualificação” dos republicanos e de pesquisas manipuladas, haja vista o episódio recente da revista New Yorker, que caricaturou, em uma de suas capas, Barack como islâmico, teleguiado por Osama bin Laden, e Michelle Obama como guerrilheira. Felizmente, os democratas têm suas próprias máquinas, tais como MoveOn.org e a equipe de notícias de MSNBC.


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