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João Cabral de Melo Neto

JOÃO CABRAL DE MELO NETO: FLASHES DE UMA VISITA

Régis Bonvicino

No dia 7 de janeiro deste ano (1980), Nelson Ascher e eu fomos visitar João Cabral de Melo Neto, no Rio, em seu apartamento na praia do Flamengo, levados por outro pernambucano, nosso amigo Sebastião Uchoa Leite. Vindo de Quito, ele seguiria em breve para assumir o posto de embaixador em Tegucigalpa. Fui, apenas, para conhecê-lo em carne e osso, sem a menor intenção de entrevista ou reportagem. De volta a São Paulo, fiz algumas anotações sobre o encontro, para uso estritamente pessoal. Na tentativa de extrair o máximo da memória, porém, as notas acabaram adquirindo um caráter de texto. Isto merece explicação: Cabral completou, em 82, 40 anos de atividade poética, iniciada em 20 de maio de 1942, com Pedra do sono, em tiragem de 250 exemplares, editado por ele próprio. Apesar de JC ser, hoje, uma quase unanimidade, sua recepção crítica caracterizou-se desde o princípio pelo equívoco. Primeiro, foi identificado com a marcha-à-ré da reacionária “Geração de 45”. Com Morte e vida severina (1954/55) foi, temporariamente, apropriado pela retórica populista da poesia dita comprometida. Em seguida, as gerações autodenominadas “marginais” combateram-no com a pecha de formalista e cerebral. Velha rixa entre o espontaneísmo da expressão direta e a expressividade da construção elaborada. No fundo, o buraco sempre esteve mais embaixo: a questão da qualidade, e aqui nunca houve quem ousasse fazer ressalvas ao seu trabalho. Ainda que tenha sido muito criticado por entrar na “Academia”, a sua poesia, felizmente, jamais compareceu ao famoso “chá-das-cinco”. Como homenagem viva ao primeiro grande construtivista brasileiro, que detesta ser chamado de “poeta” e jamais quis escrever “poesia”, coisa rara entre nós, eis a enumeração caótica do encontro:

1. João Cabral falou, sem entusiasmo, a respeito da obra de Mário de Andrade:
“— Gosto do Losango cáqui, de 1926, e do Lira paulistana, que conheci ainda em originais através de Carlos Drummond”.
Em seguida perguntei sobre Oswald, bandeira de guerra da geração concretista e ídolo da minha:
“— Empata com Mário, não troco um pelo outro, não sofri a menor influência de nenhum dos dois. Aliás, acho o Concretismo, por sua base cultural, mais importante do que o Modernismo”.

2. Durante a conversa JC deixou transparecer sua simpatia pelo Concretismo (“— Em todas as entrevistas, reafirmo minha opinião”) e, em especial, pelo trabalho de Augusto de Campos:
“— Augusto, além de ser o mais construtivista, é o mais coerente, faz aquilo que prega”. E prosseguiu:
“— Veja, Haroldo, na fase ortodoxa do movimento, apareceu com as Galáxias que, explicitamente, não têm nada a ver com as propostas do grupo daquele período”.
Pouco antes havia mencionado o fato de estar arquitetonicamente citado num dos fragmentos de Galáxias:
“— Route de Malagnout, em Genebra, onde residi e onde HC me visitou por alguns dias”.
Sobre Décio, quando já estávamos nos despedindo:
“— É um carbonário, mas com intuições fulgurantes, únicas”.
No meio do papo, quando o assunto girou para crítica & críticos, disse:
“— Quem melhor escreveu sobre minha poesia foi Décio Pignatari, no ensaio ‘Situação atual da poesia no Brasil’. Concordo com o desenho de impasses que ele traçou. O termo ‘antropologia poética’, cunhado por DP, combina com a minha obra: a apreensão direta da realidade”.
Procurei saber sobre o interesse, manifestado em poemas e declarações, de Manuel Bandeira pelo Concretismo, no fim dos anos 50:
“— O Manuel, que era meu primo, agiu mal fazendo aqueles poemas concretos. Se fossem bons, os críticos diriam: ‘Vejam, leitores, como o poeta é capaz de renovar-se’. Se fossem ruins, diriam: ‘O MB está gozando os concretistas’. Aliás”, arrematou rindo, “Augusto, Décio e Haroldo queriam mesmo é que eu fizesse poesia concreta...”. E acrescentou: “Inclusive, na época em que fui eleito para a Academia, ouvi dizer que os três lá compareceriam, no dia da posse, de vela na mão...”

3. O lado “anedótico” de João Cabral, tipo “A criadora de urubus” (Museu de tudo) ou “A imitação de Cícero Dias” (A escola das facas). Primeiro contou a estória do autógrafo de Chaplin:
“— Um grande amigo meu estava no aeroporto, neste dia vazio, de Genebra, aguardando vôo. De repente viu,sentado num banco, solitário, Charles Chaplin. Correu, apresentou-se e pediu um autógrafo. CC acenou, concordando. Meu amigo deu-lhe, então, um cartão de visita para que ele assinasse. CC assinou seu nome na borda superior, a partir do ângulo reto. Meu amigo, surpreso, perguntou a razão. CC explicou que muitos de seus autógrafos tinham sido usados para incriminá-lo: a pessoa se utilizava a parte em branco do papel para redigir, à máquina, uma declaração bombástica by Charles Chaplin e enviar para os jornais”.
E depois:
“— Jânio Quadros cortou, no início dos anos 50, todo tipo de subvenção ao Clube de Poesia de São Paulo. Bem mais tarde, quando ele passou por Dakar, perguntei por que havia feito isso. E ele respondeu (JC imitando a voz de JQ): ‘Poeta subvencionado é mau poeta’”.

4. Depois da visita, Nelson me chamou a atenção para o aspecto que mais o surpreendera em JC: a estranha combinação entre um lado arcaico, representado pelo interesse com que falara de suas relações de parentesco num Pernambuco de Casa Grande & Senzala, e um lado moderno, representado pela sua poesia e seu paladar estético.

5. Convidei-o para participar do nº 3 (nº 1, da nova série) de Corpo Extranho, com um poema inédito. De bate-pronto:
“— Não posso. Você nunca viu um poema meu publicado em jornais ou revistas, antes de sair em livro. Se lhe entregar uma colaboração agora, vou ficar angustiado, pois reescrevo até às vésperas da publicação. Há poemas que já refiz mais de vinte vezes. Retirei o A escola das facas da gráfica, quase pronto, porque não estava satisfeito com algumas soluções. Reescrevi, ao mesmo tempo, vários poemas”. E completou: “Depois de impresso em livro, não ligo, não é mais meu, podem fazer o que quiserem com o poema, já não o sinto com a mesma intensidade”.

6. Nelson abordou o tema tradução de seus poemas para outras línguas.
“— Estou, no momento, com versões francesas de alguns poemas d’A escola das facas para rever, a pedido do tradutor. Não tenho coragem, fico angustiado, não suporto ler minhas coisas em idiomas estrangeiros que conheço bem. Se quiserem me largar em paz, traduzam meus textos para o russo, o alemão, o húngaro, para línguas que não domino”.
Quis saber, aproveitando a deixa, por que participara da antologia Quimbungo - Nova poesia norte-americana, com cinco traduções do jovem poeta Robert Bringhurst:
“— Foi o Kerry Keys, meu vizinho aqui no Rio e organizador, quem me pediu. Aliás, eu ainda nem vi o livro”.
Comentei que as traduções, com exceção das dele, eram descuidadas e a escolha dos poetas, mal-feita. No embalo, indaguei se a poesia beat e, em particular Allen Ginsberg (um dos antologizados) o interessavam:
“— Conheci Ginsberg num festival de poesia, no México. Ele leu seus poemas acompanhado de uma pianola portátil. Não gostei nem dos poemas e nem da pianola. Pra falar a verdade, depois de Eliot/ Pound pouca coisa digna de nota aconteceu em língua inglesa”.
Discordei, lembrando o Ginsberg dos poemas curtos, tensos, tais como “A hardon in New York/ A boy in San Francisco”, discípulo de Willian Carlos Wiliams (poeta que atraiu o próprio João que, a propósito, foi o primeiro a traduzi-lo e a introduzi-lo no Brasil) e, sobretudo, o Ginsberg beat-hippie, precursor e guru da contracultura, capaz de, em plena Havana, afrontar e chocar Fidel Castro com seu homossexualismo.

7. Perguntei, após revelarmos grande admiração por Ademir da Guia, se ele achava que o Brasil iria ganhar a Copa, na Espanha. João, que é palmeirense em São Paulo, contraiu o rosto e afirmou:
“— O Brasil é um país que precisa de pessimismo, compreende, de muito pessimismo. O otimismo destrói o Brasil, em qualquer atividade”.

Assista ao filme Recife/Sevilha em http://www.sibila.com.br/


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