Entrevistas
 
Conteúdo desta seção:
« Retornar
 
José Ángel Leyva

Sou cindido

Entrevista a José Ángel Leyva, para el libro Versos comunicantes iii(poetas entrevistan a poetas iberoamericanos)

Régis acusa una personalidad agitada, dinámica, propia del habitante de una gran metrópolis como São Paulo. Poeta, antologador, traductor, editor y director de revistas literarias como Sibila y Diálogos & Debates, esta última destinada a un público ligado al ejercicio del derecho, pues él mismo es abogado y juez. Dentro de ese abanico de actividades, Régis impone como fundamental su oficio de escritor, de poeta. En gran medida lo cotidiano se halla determinado no sólo por la mirada del literato sino por la reflexión en torno al papel de la palabra en el quehacer humano, en el derrotero de los acontecimientos. Su poesía se percibe en gran medida vertical, poseedora de una energía fulgurante y concentradora de significados; dotada de una exigencia de concreción y economía, pretende al mismo tiempo ser detonadora de sentidos y contrasentidos. Heredera de la vanguardia brasileña, su escritura se mueve con gran libertad y plasticidad en el entorno urbano y en la resonancia de sus palpitaciones corporales, las propias y las de un universo donde los nombres aún no tienen lugar. Más que la búsqueda de un metalenguaje, las palabras de Bonvicino se desmarcan de su contexto y provocan situaciones donde un léxico innovador clama por su autonomía y su legítima actualidad. A veces a manera de collages y en ocasiones como artefactos animados, instrumentos para observar el interior de las propias palabras. Los versos de este poeta brasileño son conocidos en español gracias a la traducción de Odile Cisneros, en el libro Hilo de piedra.

José Ángel Leyva: Régis, comencemos entonces esta conversación sobre los orígenes de tu poesía. ¿Cómo adquieres conciencia del poder de la palabra escrita?
Régis Bonvicino: Preciso esclarecer alguns pontos que você coloca em sua introdução. Nunca fui advogado. Nunca advoguei. Formei-me em direito em 1978 e tentei, durante um década, viver como escritor, o que não consegui. Também nunca quis me vincular à universidade, na área de Letras. Então, acabei tendo um percurso um tanto oblíquo. Ingressei na magistratura, aqui em São Paulo, em 1990, já com 35 anos. E vejo esse trabalho apenas como um trabalho profissional, com o qual sobrevivo e mantenho minha família. Reconheço-me apenas como poeta, ou seja, não dou muita importância para as outras atividades não relacionadas à poesia. Até me sinto mal, quando você as menciona. Sou assim meio cindido mesmo […]. A revista Diálogos & Debates não é uma revista literária. Acho que há um engano aí. Mas, respondendo a sua pregunta, comecei a ser poeta num país que estava sob uma ditatura militar, [...] onde a poesia não era valorizada nem muito permitida. Havia muito preconceito, muito mais do que há hoje, […] foi sempre muito difícil para mim expor-me como poeta… O poder da palavra escrita? Consciência? Acho que, em muitos sentidos, a poesia é meu ato mais consciente, embora ela me venha muitas vezes por intuições e canais inconscientes. Tudo o mais que faço, acho meio mecânico, meio desinteligente. A poesia é minha (pequena) inteligência. A palavra escrita tem, de um modo geral, muito poder, menos quando se torna palavra escrita da poesia [...], embora esta seja, como já disse, a única palavra que respeito como mais verdadeiramente inteligente.

JAL: Es obvio que hay diferencia entre una escritura, digamos académica, jurídica, política, periodística etcétera, y la que se elabora con fines estéticos y bajo un principio de gratuidad, sin que ello signifique limitar sus consecuencias prácticas. ¿Cómo o cuál ha sido tu experiencia en las causas que motivan tu poesía y sus efectos en el medio en que aparece?
RB: Não saberia dizer, com tanta lucidez, quais são as que me motivam como poeta, sinceramente, ou seja, as causas motivadoras de minha poesia. Escrevo porque me é impossível não escrever. E porque o mundo é obscuro. E só. Mas, falando em causas num sentido amplo, diria que escrevo para criar condições políticas melhores para minha língua ou para a poesia. Escrevo para inventar. Aqui no Brasil, escrever poesia sempre foi muito difícil. Em outros termos, escrevo para manter meus conflitos vivos sob uma perspectiva de invenção, e não de repetição!

JAL: Brasil estuvo, como el resto de países latinoamericanos, sujeto a movimientos políticos que transitaron por dictaduras militares y protestas sociales que desembocaron en sangrientas represiones y alzamientos armados. Te tocó de alguna manera vivir esos acontecimientos en tu adolescencia ¿Cuál es tu visión de esa realidad política y social? ¿Influye de algún modo en el carácter de tu poesía?
RB: Vivi, como já contei, sob uma ditatura militar sangrenta. Passei dos nove aos vinte e nove anos vivendo sob uma ditatura, e sim, claro, esse fato me marcou demais e, claro, marcou minha poesia. Cursei a faculdade de Direito de 1974 a 1978, sob um clima duro de censura e perseguição. Havia policiais nas salas de aula… O que escrevo, até hoje, tem um carácter político, um caráter de oposição. A luta política e a luta pela poesia transcorreram simultaneamente em mim, nessa luta contra a ditatura, na qual me engajei. Por isso, prezo muito todo e qualquer espaço verdadeiramente crítico. O Brasil de hoje é um país mais democrático do que o Brasil de 1964 a 1985, mas ainda está distante de ser um país democrático. Há muita violência e pobreza por aqui, muita corrupção etc. Então, ser poeta é um pouco uma ética para mim, um modo de vida num país tão estranho como o Brasil.

JAL: El modernismo en la poesía y el abstractismo en la pintura son dos expresiones estéticas que se manifiestan con intensidad en la vida cultural, no sé si de todo Brasil, pero si al menos en sus grandes ciudades, donde la arquitectura es también otro signo de búsqueda ansiosa de la modernidad. ¿Cuál es para ti la emoción que marca el espíritu de la Semana de Arte Moderna de Mário de Andrade, de Drummond, Bandeira y Murilo Mendes, y en otro terreno específico, el concretismo, João Cabral de Melo Neto y Oswald de Andrade, en ese extremo de los años 1920, en contraste con la emoción generada en los años 1960 y 1970 que te tocó vivir en el despunte de tu juventud?
RB: Primeiro, uma retificação. A Semana de Arte Moderna de 1922 foi liderada por Oswald de Andrade e Mário de Andrade, aqui na cidade de São Paulo. Oswald de Andrade é um dos papas do modernismo brasileiro e foi reivindicado, depois, nos anos 1950, como um dos precursores do movimento concretista, que recusava, digamos, a estética de Mário de Andrade por considerá-la “nacionalista” e “menos radical”. Manuel Bandeira, que era um poeta vindo do parnasianismo, aderiu ao modernismo na primeira hora de 1922. Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes pertecem à segunda geração modernista, geração que estreou em torno de 1930. João Cabral de Melo Neto estreou no início dos anos 1940 e seu diálogo principal foi com Carlos Drummond de Andrade. João Cabral foi também reivindicado pelos concretistas como um precursor de linha construtivista. Mário de Andrade tem um livro de poemas muito importante chamado Paulicéia desvairada, de 1921, que desencadeou o movimento modernista por aqui. Oswald de Andrade é um autor brillante e inovador, sobretudo nos anos 1920, com a poesia Pau-Brasil, com o manifestos Antropofágico e Pau-Brasil, com a revista de Antropofagia, com seus romances Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande. Manuel Bandeira é um ótimo poeta. Carlos Drummond de Andrade e João Cabral são os dois maiores poetas de língua “brasileira” que eu conheço. Murilo Mendes é um cosmopolita, um grande poeta, um autor que permaneceu avant-garde até os últimos livros. O concretismo foi um movimento dos anos 1950-60, que buscou repensar o legado do próprio modernismo e das vanguardas européias dos anos 1910 e 1920. Todavia, ambos, modernsimo e concretismo, fecharam-se num nacionalismo estreito a patir de determinados momentos. Canonizaram-se. Perderam o pique, como se diz por aqui. O espírito da Semana de 1922? Um espírito irreverente, inventivo, cosmopolita, um espírito que, internacionalista, acabou criando a identidade brasileira do século xx. Um espírito vanguardista que denunciou as mazelas da sociedade brasileira. O espírito concretista? Um espírito mais tecnicista que, numa primeira hora, tentou reabrir a poesia brasileira para o mundo e, depois, perdeu-se em seus próprios termos, quando se “nacionalizou”. A grande questão da poesia e da cultura brasileiras é que são inercialmente centrípetas, fechadas, pouco abertas. Você fala em “emoção nos anos 1960 e 1970”. Discordo. Foram anos de retomada do espírito crítico de 1922, anos de bossa-nova, de tropicalismo, de concretismo, anos efervescentes de pensamento. Então, para respondê-lo mais diretamente, formei-me como poeta num ambiente de luta contra a ditatura, mas, ao mesmo tempo, em oposição às teorias tradicionais da esquerda, que rejeitavam a idéia de vanguarda. Formei-me num ambiente duro e efervescente, que me marcaria para sempre. Num ambiente que valorizava tanto a alta quanto a baixa cultura. Eu me opunha à ditadura, mas não me alinhava às teses da esquerda e a seu partido único.

JAL: ¿Qué significan para ti nombres más próximos como Ferreira Gullar, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Adélia Prado, junto a otros como Afonso Henriques Neto, Glauco Mattoso, Antonio Cícero, Júlio Castañón Guimarães y Horácio Costa?
RB: Comecemos por Ferreira Gullar. Não o li muito. Acho sua poeisa confusa. Ora ela inova, é original, como no começo dos anos 1950. Ora é muito tributária do estilo criado pelo modernismo de 1922, primeira e segunda gerações. Gullar abdicou da idéia de vanguarda para se filiar aos movimentos marxistas. Não é um poeta de minha preferência, embora eu o considere importante. Entre aqueles que participaram do movimento neoconcretista, como Gullar, admiro muito o artista plástico Hélio Oiticica, que considero um dos maiores artistas brasileiros dos últimos cinqüenta anos. Haroldo de Campos: tenho sentimentos e opiniões divididas em relação a ele. Admiro o Haroldo de Campos dos anos 1960, aquele que se despregou de uma poesia neoparnasiana e que se atirou na idéia de vanguarda. Admiro o Haroldo de Galáxias. Todavia, com exceção de Galáxias e alguns outros poemas, não gosto da poesia de Haroldo de Campos, que reputo muito conservadora. Haroldo era um poeta sem duende, digamos. Como teórico, não o admiro. Ele se valia de uma espécie de mecanismo de retroprojeção, para se dizer sempre à frente, para declarar sua poesia sempre à frente de tudo. Surgia um novo movimento e lá estava Haroldo, afirmando que esse novo movimento havia sido previsto por ele… Acho que ele foi um importante tradutor de Ezra Pound, de Mallarmé e de Joyce. Reputo subliteratura suas traduções bíblicas e as de Homero. Augusto de Campos: acho que é um bom poeta, no início. Ele vem se repetindo muito, de uns vinte anos para cá. Seu discurso é monocórdico e monótono, teoricamente. Mas Augusto tem uma grande importância, claro. Só o fato de ter feito voltar à cena um poeta como Sousândrade, junto com Haroldo, é muito relevante. Não vejo nenhuma importância na poesia de Adélia Prado e Afonso Henriques Neto. Dou importância ao Glauco Mattoso do Jornal Dobrabil. Acho muito conservadora e sem sex appeal a poesia de Antonio Cícero. Acho que Júlio Castañon Guimarães é um poeta decente, sério, com uma poesia substantiva, dura, significativa. Horácio Costa: acho que ele escreveu um único livro atraente, intitulado Fracta. No mais, tem uma atuação que não me convence, uma poesia que não me convence. Morou anos no México e não trouxe nada da poesia mexicana para o Brasil. Trouxe Octavio Paz, que já vinha sendo traduzido por Haroldo de Campos. Horácio é muito mainstream, muito “burguês” para meu gosto. Acho Horácio uma figura da direita, sem maiores conseqüências… Ele investiu muito na idéia de gênero […], que reputo muito pobre. No período mais duro da ditatura brasileira, Horácio estava nos Estados Unidos, no México. Não participou de nada por aqui.

JAL: Mutación es una palabra clave en tu obra, como lo son los conceptos de hibridez y contracultura en tu trayectoria intelectual. Hoy en día vamos montados en la velocidad de los cambios sin registrar al menos sus significados, sin percatarnos de nuestra transformación involuntaria. ¿No es este periodo acaso una agitación contracultural de los sentidos y de los significados convencionales? La mutación entonces a la que te refieres ¿es una alusión o una invocación de la crisálida o de la mariposa?, ¿una forma de nombrar la realidad presente o la futura? Quiero decir, que desde mi punto de vista la globalización es contracultural, y los otros procesos son de resistencia ante un fenómeno que homogeniza y somete a sus propias leyes, hasta ahora dictadas por el mercado. La poesía, ya lo expresé antes, no entra exactamente en el régimen de mercado, hasta ahora. ¿Cómo debemos entender en nuestra lectura y conocimiento de tu obra poética los términos: mutación, hibridez, contracultura?
RB: Não creio que a contracultura tenha sido, aparentemente, tão importante para mim. Foi e não foi. Passou. Por outro lado, nunca me senti muito à vontade para falar de meus poemas, de minha “obra”. Mutação, sim, identifico-me com esse conceito, que é um conceito sinônimo de invenção, de busca etc. Hibridez? Escrevo poesia, quase que estritamente, e, por isso, não me identifico com esse conceito de “híbrido”. Você me pregunta se a mutação é uma forma de nomear o presente, de nomear o futuro. Não sei, francamente falando. De um modo geral, embora a poesia seja, digamos, um processo de resistência contra a homogenização, ela mesma é hoje, em todo o mundo – com exceções –, muito previsível, muito desnecessária, muito flácida. Tento fugir dessa flacidez em minha poesia.

JAL: Brasil, como Argentina y México, tuvieron una temprana agitación vanguardista, decenio de 1920, que generó movimientos y grupos que lanzaron manifiestos estéticos. Tú, al inicio de Remorso do cosmos enciendes la mecha con un poema llamado así, justamente, “Manifiesto”. Lo haces no a manera de plataforma de principios, sino de consigna metonímica, de invocación del suceso universal, del movimiento, no sin una dosis de ironía. ¿Qué sentido tendría un manifiesto a estas alturas de la novedad como esencia de lo cotidiano?
RB: o principal sentido de manifesto em “Manifesto” é o de expresso, visível, evidente, e não o de afirmação […]. Há, sim, uma ironia com a idéia de manifesto, no sentido vanguardista. O que está manifesto? Uma boca de mil dentes, que cospe os fardos. Falo mais do cotidiano aí. Falo daquilo que conspira contra a criação. Todavia, sim, penso meus poemas e livros dentro de uma tradição, que, em meu caso, é a de vanguarda. Por quê? Porque só houve espírito crítico ou houve mais espírito crítico nas literaturas quando elas se assumiram como vanguarda. Você falou em Argentina. Sim, a poesia argentina adquiriu uma outra dimensão com Oliverio Girondo, por exemplo. De outra perspectiva, a maioria dos escritores foge da idéia de inovação, vanguarda, invenção… Então, quero isso!

JAL: Para un poeta ocupado en su propia dimensión significativa ¿qué representa el compromiso de hacer una revista literaria como Sibila?
RB: Não vejo Sibila como uma revista literária no sentido de divulgação. Sibila é uma revista ideológica. Está interessada em determinados aspectos da criação, em uma determinada tradição ou campo, que é o campo da inovação, da invenção, da mudança. Ela tem correspondentes no mundo todo, como Charles Bernstein, um language poet, em Nova York, e um Claude Royet-Journoud, ligado às vanguardas francesas, em Paris, por exemplo. Então o compromisso de fazer Sibila é o de criar novos territórios de legibilidade, novos campos de leitura, para além dos moldes modernistas de 1922, dos moldes concretistas etc. Numa poesia flácida e pálida, incluindo-se a concretista, como a poesia brasileira atual, fazer Sibila significa fazer crítica, significa pensar um pouco o ambiente brasileiro, muito acomodado. Eu diria que Sibila se pretende (e só se pretende!), no campo de revista, uma Klaxon ou Revista de Antropofagia dos anos 1920. Sibila significa lutar contra o recorrente fechamento nacionalista da cultura e literatura brasileiras.

JAL: Por último, ¿cuál es tu visión de la poesía que se hace en América Latina y qué opinión tienes de la que se hace en tu país?
RB: A América Latina produziu alguns dos melhores poetas do século xx, como Oliverio Girondo (Argentina), Cesar Vallejo (Peru), Vicente Huidobro (Chile), Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto (Basil). Todavia, hoje, ou há muito, não produz poetas que considero relevantes ou tão relevantes como os anteriores, que mencionei. Acho que a poesia brasileira e a latino-americana dos últimos trinta anos é, por exemplo, menos interessante do que a norte-americana, menos efervescente, menos criativa. Acho, como já disse, a produção latino-americana muito previsível, muito repetitiva. Mas há excelentes poetas tanto na América hispânica quanto no Brasil. Citaria o uruguaio Eduardo Milán, um grande crítico também. E aqui do lado brasileiro citaria, entre os mais novos, Josely Vianna Baptista.

Manifesto

Boca de mil dentes
Intermitente
Cospe os fardos

Manifesto, de Remorso do Cosmos (São Paulo, 2003, Ateliê Editorial)

Leia também a entrevista de Fernando Henrique Cardoso a Régis Bonvicino


Copyright © Régis Bonvicino


 



Topo
 
  Desenvolvido por CódigoTecnologia.com