Em 1915, o então estudante de arquitetura catalão e, depois,
arquiteto César Martinell Brunet, aproxima-se de Antoní Gaudí
(1852-1926) em virtude de seu fascínio sentimental (mais do que
consciente, como anota) pela construção da igreja da Sagrada Família.
Gaudí deixara seus projetos de lado – o último deles, a estupenda casa
La Pedrera – para tornar-se seu diretor, em 1883, um ano após o início
de sua edificação, e devotar o resto de sua existência à construção do
que é considerada sua obra-prima, baseada no uso inovador de formas
geométricas naturais, com uma complexidade que dialoga com as artes
egípcias, assírias, greco-romanas e arábicas do norte da África e, em
particular, com a igreja de Santa Sofia, em Constantinopla.
La Pedrera é o nome popular da Casa Milà, construída entre 1906 e
1912, pensada por Gaudí como o corpo de um animal, sinuoso, onde os
ossos serviram de modelos para as colunas e a pele para as fachadas
exteriores. “Ela possui dois pátios internos; um circular e outro oval,
que se comunicam entre si”, explica Brunet, acrescentando que não há
uma linha reta sequer. Ainda segundo Brunet, a prefeitura tentou
embargar a obra, por destoar do alinhamento urbano do Passeig de
Gràcia, e o fez até 1909, quando a liberou. Há charges, da época de sua
inauguração, que a mostram como estacionamento de aviões. As chaminés
recordam vagamente figuras de Hieronymus Bosch, de O jardim das delícias,
mas menos sombrias e muito mais lúdicas. Figuras de Bosch, aliás,
presentes também, como pano de fundo, na obra de outro gênio catalão:
Joan Miró, nesse caso com a ressalva de João Cabral de Melo Neto, em
seu livro intitulado Joan Miró (Rio de Janeiro, Ministério da
Educação e Cultura), de 1952: “creio que, mesmo sumariamente, o que
constitui sua maneira de ele [Miró] compor não pode ser reduzido a
leis”.
A importância do livro reside no fato de as notas de Brunet
consistirem na única “entrevista” concedida por Gaudí em vida, que
detestava escrever. Entrevista que vai de 1915 a 1926. Brunet registrou
muito do pensamento artístico e científico de Gaudí e de suas reflexões
sobre a Sagrada Família. Por exemplo: “Revela que esta porta será
também policrômica; diz que cor é vida e a falta de cor é a
manifestação mais visível da morte”. Gaudí falava constantemente da luz
do “campo de Tarragona” a seu amigo Brunet, como uma luz superior que
predispunha os catalães do litoral a uma visão plástica das coisas. A
cidade de Tarragona fica ao sul de Barcelona. Gaudí e Brunet nasceram
em Reus, que se situa, sentido interior, próxima à ela.
A igreja ainda está em obras, o que era previsto por Gaudí, que
citava a Catedral de Colônia, “que esteve por centúrias sem abóbadas”.
No momento, ergue-se sua torre principal. A impressão que tive, em
novembro de 2007, quando fiz leituras de poemas em Barcelona, na Casa
Amèrica Catalunya, foi a de que estava dentro do filme Roma,
de Federico Fellini, especificamente na cena em que os trabalhadores do
metrô descobrem um sítio arqueológico, com desenhos que se esvaem ao
contato com a luz externa. A trilha sonora da visita consistiu no som
de chiados ásperos de guindastes em manobra e de serras estridentes.
Sagrada Família está viva não só por sua complexidade, mas porque,
penso, Gaudí – um visionário – a previu como uma obra sempre em aberto,
em movimento, como um móbile.
Na Quinta Güell, construída por Gaudí no final dos anos 1880
(Eusébio Güell foi próspero empresário que o apoiou incondicionalmente
até sua própria morte) já se podem ver os trencadís. Os trencadís
são colagens de azulejos quebrados de várias cores, rejuntados numa só
peça. Cores “apreendidas” por ele em Tarragona, onde há um mirador ao
lado de um anfiteatro romano do século ii a.C. Os trencadís
(palavra catalã) ficam mais explícitos ainda no Parque Güell, realizado
de 1900 a 1914. Nesse parque, Gaudí utilizou-se do procedimento ready-made,
sem nem sequer conhecer Marcel Duchamp. Aproveitou as curvas do morro
onde o parque foi traçado, aproveitou-se das plantas locais, usou as
palmeiras como falsos pilares etc.
O que quero assinalar é que Picasso não teria composto Les demoiselles d’Avignon (1907) sem conhecer os trencadís. As meninas já se insinuavam em trabalhos como Margot ou La espera (1901), onde a prostituta é retratada em close com batom vermelho marcante, em lábios exagerados; ou em El abrazo
(1901), onde homem e mulher, colados pelo abraço, fazem a perspectiva
natural começar a se perder – ambos compostos em Barcelona. Picasso
residiu por duas vezes em Barcelona antes de criar Les demoiselles d’Avignon
e só se tornou Picasso após sua estadia na cidade, de 1899 a 1900.
Antes, como no caso de Machado de Assis, era um pintor de alto nível,
mas convencional (por duas décadas). Picasso freqüentou a Carrer
d’Avinyó, em Barcelona, onde havia bares e bordéis. As meninas d’Avinyó
são prostitutas dessa rua.
A Sagrada Família é uma dessas obras ímpares dos séculos xix, xx e,
como segue, do xxi. Disse Gaudí a Brunet: “Afirma que a palavra é o
tempo. [...] Através da palavra, vivenciamos épocas passadas e
futuras”. As anotações de Brunet permitem-nos verificar que o
catolicismo de Gaudí era dissociado de sua obra lúdica e que, como o
historiador da arte Giulio Carlo Argan, prefeito de direito que
recuperou Roma, Gaudí foi o prefeito de fato de Barcelona.
Conversas com Gaudí
César Martinell Brunet
São Paulo, Perspectiva, 212 p.


Casa Milà



Sagrada Família
Fotos: Régis Bonvicino